Desejos e Devaneios

 

Surgiu do nada,

como se de nada fosse feita,

translúcida e etérea

tal a magia que a envolvia.

 

Fechou os olhos lentamente

demoradamente,

sensualmente,

 

Abriu-os repentinamente,

assustadoramente,

despudoradamente.

Cílios pintados

longos,

amarronzados.

Olhar fixo

determinado,

autoritário,

atrevido e  valente

mais ainda......

penetrante,

cativante,

envolvente,

rastejante

paralisante,

tal qual olhar  de uma serpente.

 

Corpo delineado, curvas exuberantes,

busto saliente, gestos provocantes

 na névoa que a circundava

nada  se  via.

 

Só suas formas

E seu olhar.

 

Com movimentos sorrateiros

junto ao meu corpo postou-se de mansinho.

E tão leve parecia estar

que caso eu a tocasse

com certeza iria se desmanchar

 

Eu não ousei !

Nem precisei !

 

Não, não fui eu a tocá-la!

Tocou-me a mim

da pele às entranhas

com mãos de fada

e poder de bruxa!

 

Em suas  mãos

um parvo me tornei.

Comanda a mim

e aos meus pensamentos,

meus gestos, minhas falas,

meus impulsos, desejos,

todos os  meus sentimentos.

 

Entraram em minha vida,

vindos do céu

ou talvez dos infernos

uns olhos que me  vigiam

um corpo que me sacia.

 

E do  prazer passageiro,

efêmero,

carnal,

Uma tristeza imensa.

 

Seus lábios queimam os meus.

Deixam-me marcas e feridas profundas.

Machuca-me  seu corpo

quando invade o meu

e violenta me toma

como se objeto fosse.

 

Usa - me quando  e como  bem o quer

sem que  eu, pobre  mortal,  sequer

reaja ou tente das garras lhe  fugir.

Domina-me a vida.

Controla-me a  alma.

Submete-me à fúria

de sua ira ou de sua paixão.

Maltrata-me a mente.

Judia-me o corpo.

 

Tenho na pele

suas unhas marcadas.

Sangram-me os lábios

feridos

 

E ao fechar os olhos

cansados que estão,

viajo no tempo,

volto ao passado.

 

Volto à cena de sua aparição,

do nada, entre a neblina.

 

Penso em dela  fugir

por sentir-me nas trevas

 mas eis que ela surge

radiante, sedutora e bela

e sem que  eu me  importe

sem que ouse rebelar-me

sem que  queira opor-me

minha razão comanda.

 

Meu corpo se curva novamente.

Meus lábios se abrem para os  seus

e admito, num lapso de consciência,

que este ser que faz de mim

 joguete ou marionete

É fruto da minha sandice,

Do macho enlouquecido

Que diante de olhos sorrateiros

Frente a quadris de fêmea provocante

Se envolve em busca de prazer

Buscando retardar o tempo

Implacável e certeiro

Que deixa fundas marcas

No corpo e na mente.

 

 

Só me resta, por ora, objeto que  sou

De quem um objeto eu pensara fazer,

deixar  o mesmo tempo

que apressado e volúvel

a trouxe ao meu encontro.

levá-la  para outros

para que eu descanse!

 

 

Monique

(29.09.2004)