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A vitrola ainda toca

Em meio a móveis  velhos

E recordações recentes.

 

Até a velha lamparina

gasta  pelo querosene,

Já sem uso,

fixa na parede suja

envolve o salão com sua  meia luz

e vultos do passado

cobrem paredes e móveis

manchados do tempo e da tristeza

  como se neles  impregnados estivessem

gritando em seu silêncio cru

sua passagem

sua estadia

na vida e nos pensamentos

de cada um

destes velhos  corações  solitários.

 

“Você  é o  culpado de toda a minha angústia ......”

 

Vão pelo tempo

dispersos em sentimentos vários,

em recordações diversas,

de mente e de pele,

divagando nos sonhos que desmoronaram,

indo  no tempo

de ré,

perdidos em suas lembranças.

 

“Você  é o culpado de minhas inquietudes ......”

 

E que fazer  sem elas ?

Como acalmar o coração

prestes a romper-se

de tão carregado de amor prá  dar ?

 

Como não dizer o que se sente?

E dizer a quem que não se sente o que se sente ?

Como calar-se diante da sufocante espera?

Como calar o desejo de sentir novamente

todas aquelas emoções ?

Porque fugir da dor se esta dor  é que se quer ?

 

Vê-se em cada um destes rostos sofridos

O quanto  pulsa  forte o coração no peito:

uma lembrança  volta,

um desejo renasce,

uma esperança chega.

 

O tempo é o  juiz?

Passou do tempo ?

Não pode  mais ?

 

Cigarros morrem um a um nos cinzeiros lotados,

Lágrimas furtivas rolam sobre rostos  frágeis

 e  a música implacável toca :

 

“ Você é minha esperança...  minha última esperança......”

 

Em pensamentos  vários

nasce a mesma pergunta:

Que faremos  sem isto ?

Sem este esperar? Sem esta possibilidade?

 

Que remédio nos resta

senão a esperança

que, pacientes ou impacientes,

dóceis ou indóceis

Cura a nossa dor?

 

Cigarro após  cigarro,

fumaça pelo ambiente

sombras pelas paredes sujas

de lembranças limpas

e doces recordações

de sofrimentos atrozes,

 vinganças

abandono,

desespero,

arrependimento,

assustam  a lua

amiga dos eternos amantes

 que  foge com seu clarão de fogo

para não destruir as velhas esperanças

que por passar-se  dos  cinqüenta

sempre  parecem ser as últimas.

 

 

 

A luz se faz mais  fraca, os rostos  se  contorcem.

Choram alguns,

Deliram outros.

Riem  muitos sem bem saber porquê.

Recordam suas histórias,

 únicas e incríveis

que o amor  ou o ódio

fizeram renascer das cinzas.

 

Pacientes ou impacientes,

doídos, fôlego reteso,

respiração suspensa

ouvindo vozes a lhes dizer:

Tudo vai renascer,

tudo vai voltar,

alguém vai surgir,

vai  revelar-se,

apaixonar-se por  você

 permitindo , sem  dúvidas

que você se apaixone por  ela.

Porque é  disto que sua  vida precisa.

É por isto que sua  vida espera:

 

Todos os  seus  sonhos cinqüentões resumidos

 na esperança de ver outra vez

seu coração sorrir,

abraçado a outro coração.

 

Monique

(Aroma de Rosas)

31/08/2004